O sol carioca e as histórias que carrega

Retratando a realidade dos morros, o escritor carioca Geovani Martins apresenta, em O Sol na Cabeça, diversos perfis encontrados na periferia: tem o garoto criado pelo pai que tem medo de decepcioná-lo, testemunhas de violência policial, aqueles que planejam uma vingança, outros que levantam questões relacionadas ao uso de drogas e ainda diversos personagens que ilustram pessoas reais.

A partir de contos focados na infância e na adolescência de moradores de favela, o livro mostra a linguagem utilizada nos morros e atrai o leitor pela sua simplicidade, mas, ao mesmo tempo, pela complexidade de se viver em um dos destinos mais procurados do mundo pelos turistas brasileiros e estrangeiros, o Rio de Janeiro, enquanto a dura realidade não permite um dia sequer de tranquilidade.

Em pleno 2018 é necessário bater na tecla de que muitas pessoas trabalhadoras e honestas vivem nas periferias, pois o olhar que julga e condena consegue ser muito eficiente na hora de tirar conclusões precipitadas e misturar trabalhadores com traficantes de drogas e bandidos. O que Geovani faz é mostrar, com muita honestidade, a realidade de cada personagem da periferia.

Só quem morou em uma favela pode relatar com autoridade as dificuldades do dia a dia e a malandragem necessária para sobreviver a ela. Geovani Martins, que nasceu no Bangu, encarou com muita sabedoria a tarefa de colocar em palavras a realidade da periferia. O Sol na Cabeça é o seu primeiro livro, e seus direitos já foram vendidos para nove países. Uma verdadeira vitória para um autor que estreante que estudou até a oitava série e trabalhou como homem-placa e atendente de lanchonete.

Gostaria de destacar o conto O Mistério da Vila, dedicado a dona Maria de Lourdes. Fala de uma senhora, dona Iara, que é temida pelas crianças e negligenciada pelos adultos que moram na região por fazer macumba, porém é chamada sempre que há um caso grave, como uma criança gravemente doente ou uma infestação de carrapatos. Muitos de nós conhecemos alguma dona Iara quando crianças. É uma figura recorrente na população brasileira, que ainda olha com descaso para religiões de origens africanas e se rende à hipocrisia de tantas outras sem questionar nada e ninguém.

Os personagens de Geovani Martins não se permitem lamentar a vida que levam, ao contrário, eles a enfrentam com a coragem de poucos, mas com a vontade de viver de muitos. Mais importante do que isso, o autor não julga o leitor pela sua classe social, ele se limita a contar as histórias de cada personagem que clama pela exposição merecida. São personagens que só existem na ficção, mas que foram criados a partir de pessoas reais que conseguem sorrir diariamente, apesar das dificuldades. A junção de beleza e precariedade resulta em um sentimento difícil de descrever, mas fácil de sentir ao ler O Sol na Cabeça.

 

Título: O Sol na Cabeça

Autor: Geovani Martins

Editora: Companhia das Letras, 2018

Páginas: 120

Siga @Nerdssauros