Estrelas Além do Tempo (Theodore Melfi, 2016)

 

Não é novidade que mulheres negras são subestimadas dia após dia e menosprezadas pela cor da pele e pelo sexo. A coisa fica pior quando percebemos que há menos de 100 anos a situação era tão desprezível e incompreensível que resultava em humilhações diárias e no desrespeito constante.

O cinema já mostrou isso algumas vezes, como em A Cor Púrpura (1985) e no emocionante Histórias Cruzadas (2011). Porém, nos dois filmes citados, as personagens femininas negras são retratadas como pessoas esforçadas, mas reféns de um sistema que não favorecia o crescimento pessoal, profissional ou intelectual dos negros.

Em Estrelas Além do Tempo, que tem uma narrativa com início no final dos anos 1950, estes problemas continuam lá, mas o trio (maravilhoso) de protagonistas não se mostra disposto a se conformar com a prática da época. Katherine Goble (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) são grandes matemáticas que trabalham para a NASA e enfrentam o racismo e as dificuldades que surgem com ele. Elas são mães e conciliam a criação dos filhos com a vida profissional e suas intenções de não se conformar com a posição que era esperada por parte delas.

Enquanto em 2018 há o racismo muitas vezes disfarçado, aqui testemunhamos uma sequência de situações em que o mesmo fica em evidência, como a dificuldade de Dorothy em acessar parte da biblioteca pública, a falta de um banheiro próximo em que Katherine tinha autorização para utilizar e a coragem de Mary ao querer frequentar uma universidade onde pessoas negras não podiam estudar.

A tristeza da situação e das atitudes de grande parte dos personagens poderia transformar Estrelas Além do Tempo em um filme pesado e difícil de assistir, mas a história (ainda assim) tem um tom leve e o modo com que é conduzido o transforma em uma narrativa agradável.

As três atrizes do centro da história estão ótimas em seus respectivos papéis. Octavia Spencer conseguiu a segunda indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel de Dorothy Vaughan, mas confesso que acho uma pena a Taraji P. Henson não ter sido indicada. Sua dedicação e entrega ao papel são evidentes e mereciam mais atenção.

A cantora Janelle Monaé também não fez feio. Colocou em seu papel a dose ideal de força de vontade, empenho e esperança, caracterizando uma mulher forte e que não se conformava com pouco, mas com o que tinha direito.

Não se engane, o filme não é perfeito. As personagens não se permitem abraçar os papéis de vítimas, somente os de guerreiras que lutam por reconhecimento e igualdade, mas sempre tem que ter alguém para mostrar que isso é possível, o tal do homem branco bonzinho e tolerante. Aqui ele aparece na forma de Al Harrison, interpretado por Kevin Costner. Não estou dizendo que o Al do filme ou o que conviveu com as profissionais na NASA era má pessoa. O grande problema é a necessidade de sempre ter uma pessoa do grupo que discrimina para “perceber” que o que estão fazendo é errado e impor a aceitação das minorias.

“E isso não é bom?”.

Não, não é. Bom seria o reconhecimento geral por parte do trabalho bem desempenhado, não a imposição ou obrigatoriedade vinda de um homem branco. Dessa maneira, é a ordem dele que está sendo validada e deixa explícita a necessidade de haver uma pessoa para “autorizar” que a minoria continue se mostrando válida e essencial para o desenrolar do trabalho. Infelizmente, essa é uma realidade. Acontece em diversos ambientes todos os dias e só não percebe quem não quer abrir os olhos.

É maravilhoso perceber que um filme com três protagonistas negras fez bilheteria significativa nos EUA e no Brasil, porém é preciso também não ficar deslumbrado com o que não deveria ser uma exceção, mas uma característica comum do que é comercializado mundialmente. A busca pela igualdade não terminou e está longe do fim, apesar de grandes avanços nas últimas décadas.

Com a direção de Theodore Melfi, Estrelas Além do Tempo foi concebido com a intenção de quebrar paradigmas e contar uma história aos moldes do que o público quer ver nos dias de hoje, ou seja, saindo do conceito de elenco óbvio, mas também com a intenção de emocionar e fazer o público torcer pelas protagonistas. É um filme que dificilmente vai fazer história, mas foi lançado na época certa, em que é de grande importância mostrar que o pensamento machista e racista não pode prevalecer em 2018.

 

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