Mortal Engines – Mais um livro que é melhor que o filme

De um lado a capa do livro publicada no Brasil pela ‘Novo Século’ e do outro o pôster da adaptação cinematográfica.

Walter Niyama

Você provavelmente viu o fiasco que foi o filme ‘Máquinas Mortais’, que mesmo tendo a produção do famoso cineasta Peter Jackson não conseguiu se salvar da fraca bilheteria. Estimativas na época afirmavam que o estúdio ‘Universal’ poderia ter um prejuízo de US $ 150 milhões.

No ‘Rotten Tomatoes’ o filme recebeu a nota de 27% e a crítica das pessoas também não foi animadora. O filme nem mesmo é lembrado como o grande fracasso, na época de seu lançamento houve alguma divulgação, mas pouco bate-boca e que hoje, já estamos em abril e não se vê mais ninguém falando do filme. Foi esquecido ou ficou restrita a um nicho. 

Pode-se dizer que ‘Máquinas Mortais’ falhou em tudo e nem mesmo conseguiu ser lembrado por isso. O filme ficou em exibição nos cinemas por pouco tempo para um blockbuster.

E com isso, pelo menos no curto prazo, ‘Máquinas Mortais’, ou ‘Mortal Engines’, não verá suas outras histórias na grande telona. O universo de cidades predadoras criado pelo renomado escritor Philip Reeve possui quatro livros e um spin-off que antecede os eventos que o filme retratou.

Em ‘Mortal Engines’ (o livro) acompanhamos Tom Natsworthy, um jovem aprendiz da guilda dos historiadores que teve seus pais mortos em um terrível acidente quando uma das plataformas de Londres da parte baixa desabou. Tom tinha uma vida pacata e que caminhava para a mediocridade quando conheceu o grande historiador Thaddeus Valentine e sua encantadora filha Katherine.

A vida de Tom parecia que iria melhorar, quando Valentine sofre uma tentativa de assassinato por uma moça misteriosa com uma cicatriz horrenda no rosto.

Ela consegue fugir, mas antes revela um segredo terrível de Valentine para Tom, que acha que é apenas uma coisa saída da mente de uma louca, quando Thaddeus se volta contra ele.

Quero deixar claro que um filme pode acabar se tornando um produto melhor do que o livro. É o caso, por exemplo, de ‘O Iluminado’ e também ‘A Bússola de Ouro’. Isso pode rolar mesmo se não for fiel ao conteúdo original. Não é o caso de ‘Mortal Engines’.

Uma das coisas que marca o livro além de seu mundo pós-apocalíptico com cidades se movendo e caçando umas as outras é a construção de seus personagens. Tom é forçado a ser mais do que o ingênuo e doce jovem amante da história quando se vê confrontado pela violência fora de Londres. No filme, Tom é praticamente a mesma pessoa no final.

Hester Shaw é uma jovem que apesar de valente, corajosa e cheia de ódio, é também uma pessoa cheia de mágoa e tristeza e muito traumatizada pelos eventos em sua vida, sendo o mais doloroso deles sempre rememorado quando ela enxerga sua cicatriz que no livro é descrita de forma bem mais horrenda do que é mostrado no filme. Hollywood sendo Hollywood. Na ideia tentaram reproduzir esses sentimentos, mas a atuação e o roteiro acelerado não contribuíram.

Mas o que mais representa a superficialidade do filme comparado ao livro é o vilão Thaddeus Valentine. Um personagem de várias camadas que se divide entre um gênio, um aventureiro, um salvador de seu povo, um assassino, um pai que faria tudo pelo bem de sua filha, foi reduzido para um vilão extremamente genérico, um cretino qualquer.

Quem apenas assistiu ao filme percebeu o quanto algumas cenas foram difíceis de engolir, enquanto quem leu os livros provavelmente lamentou ainda mais porque sabia o potencial que tinha e viu-o ser desperdiçado. Pontos importantes da trama foram alterados para apenas contribuir para fazer um filme de ação e aventura qualquer ao invés de algo destacável.

Não vou dizer que a saga é perfeita, que não tenha seus momentos “romance adolescente”, – até porque os personagens são adolescentes – mas os momentos são mais bem elaborados e coerentes.

A série de livros Mortal Engines foi publicada aqui no Brasil pela editora ‘Novo Século’. Aliás, publicaram apenas os três primeiros, o quarto nunca foi publicado e pelo visto demorará a ser, isso se for. Há alguns anos eu precisei comprar de fora pela ‘Amazon’ para tê-lo. A ‘Harper Collins’ aparentemente iria republicar a série de livros, mas olhando seu site só encontrei o primeiro volume.

O filme poderia ter dado grande visibilidade para os livros. O cinema ainda é uma mídia que alcança mais pessoas do que os livros. Mas não foi o que aconteceu, aliás, uma pena para uma história steampunk tão rica, com um universo bem estabelecido, intrigas e personagens carismáticos. O filme pode não fazer parecer, mas o livro vale muito a pena ler. Eu aconselho a lê-lo, mesmo que não goste. Pelo menos aí você poderá dizer “nem o livro é bom”, embora eu tenha minhas dúvidas de que isso vá acontecer.

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