Black Mirror 5ª temporada: A liquidez das relações humanas

Os tempos são líquidos porque, assim como a água, tudo muda muito rapidamente. Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar. ”_ Zygmunt Bauman

Assistindo essa última temporada de Black Mirror, sempre me vem em mente os ensinamentos trazidos pelo filósofo Bauman sobre a liquidez das relações atuais. Os três episódios vêm trazendo, cada um de sua forma, como nossas relações estão cada vez mais vazias, onde apenas pequenos lapsos de prazer são importantes e principalmente como o ser humano (com seus sentimentos, angustias, tristezas, etc.) pode ser descartado quando não se tem mais um interesse real nele. 

O que se percebe em todos os episódios é a falta de sentimentos mais recíprocos e profundos, os quais o mundo não mais se interessa em prolongar, onde cada um ao seu modo vem mostrando os quão vazios e superficiais são nossas relações num futuro nem tão distante assim. (Ou será que já estamos vivenciando isso?)

Bem vamos aos episódios: ATENÇÃO COM SPOILERS A PARTIR DAQUI!

S5E01: STRIKING VIPERS

Dois amigos de longa data se reencontram após um tempo separados. Relembrando dias da faculdade, Karl (Yahya Abdul-Mateen II) presenteia Danny (Anthony Mackie) com uma cópia do jogo Striking Vipers, franquia de jogos de luta que imita Street Fighter – sendo possível joga-lo em realidade virtual. Quando começam a jogar, os dois – assumindo o corpo de seus avatares – se beijam, desencadeando uma série de estranhezas entre eles e levantando suspeitas em Theo (Nicole Beharie), esposa de Danny que depois que este ganha o jogo fica cada vez mais distante e indiferente a esposa.

O “bromance” impera nesse episódio. Levantando questões sobre traição virtual, sexualidade e quão fácil parece nos abdicar de ter relações e momentos reais por um prazer “imaginário”, porém livre das convenções sociais presentes em nossa sociedade.

S5E02 – “SMITHEREENS”

 Um motorista de aplicativo chamado Chris (Andrew Scott) sequestra um executivo da empresa responsável por uma rede social, que lembra muito o  Twitter, com o objetivo de atrair a atenção do CEO Billy Bauer (Topher Grace). Tudo começa a desandar quando Chris percebe que raptou alguém de baixo escalão, e os executivos da corporação junto com a polícia tentam negociar com ele.

Dos 3 episódios sem dúvida foi o que mais gostei. Apesar de a trama ocorrer basicamente com Chris dentro do carro tentando a todo custo falar com Billy Bauer, é possível notar todo o poderio das empresas por trás das redes sociais (controle de informações, quebra de privacidades quando assim o querem, pouco interesse por evitar a disseminação das famosas Fake News, etc.) além de como a necessidade por “likes” e a obsessão por plataformas socias podem gerar complicações bastante sérias na vida real e que as vezes acontecimentos, por mais impactantes que sejam não passam de apenas uma notificação em seu celular.

 S05E03 – RACHEL, JACK AND ASHLEY TOO

Rachel (Angourie Rice) passa por dificuldades em sua casa tanto pela morte da sua mãe, quanto pela mudança de residência e a falta de comunicação com sua irmã mais velha Jack (Madison Davenport). Para lidar isso, ela busca inspiração na diva pop Ashley O (Cyrus), cujas letras falam sobre resistência, autoconfiança, esperança e superação. Após a cantora entrar em um estranho coma, Rachel descobre que sua boneca robótica Ashley Too, inspirada em sua ídola, pode ser um sinal de que a vida da artista pode não condizer com o que é tratado em suas músicas e o que é mostrado pela mídia.

Já com essa trama, se você não se atenta a real premissa do que a história quer mostrar, é bastante fácil sentir a sensação de que se está assistindo a um filme teen da sessão da tarde.

Porém se você der a chance para o episódio verá que ele tem uma crítica muito boa sobre os métodos abusivos da indústria da música (nesse caso trata-se do gênero pop), e que com os avanços da tecnologia o artista poderá facilmente ser descartado e substituível, dando uma maior liberdade de exploração apenas dos pontos positivos que o artista tem a oferecer.  Além de mostrar essa liquidez do mundo da música, o episódio mostra também como os ídolos podem influenciar, mesmo que muitas vezes de forma artificial, a vida de seus fãs e como as vezes isso tem um impacto positivo.

Bem essa temporada foi a que menos me cativou, mas não achei ela tão horrível como estão pregando por aí. Porém, os pontos trazidos por ela mostram que o futuro já está bem mais próximo do que se imagina.

E vocês, o que acharam dessa 5ª temporada de Black Mirror?

Amanda Andrade

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