Para Onde Vão os Suicidas? – Resenha e entrevista com o autor

Um dia, uma jovem chamada Angelina tomou uma decisão sem volta. Sua relação com o pai é distante e complicada. Sua mãe morreu justamente quando lhe deu a luz. Ela decidiu cometer suicídio. Nisso, do outro lado, ou quase, ela encontra Ixtab, a deusa dos suicidas.

A divindade a informa que para que ela consiga completar a transição entre os mundos, Angelina terá que impedir três pessoas de se matarem. E nisso, a jovem terá que enfrentar as emoções dos outros, seus próprios sentimentos, e é claro, o tempo.

Apesar dos temas abordados, “Para Onde Vão os Suicidas?” é um livro bastante positivo, colorido e encantador. Conforme vamos lendo queremos saber mais sobre seus personagens e histórias. Mas, para falar mais sobre o livro, eu decidi entrevistar o autor dele, Felipe Saraiça. Ele também escreveu o livro “Palavras de Rua” que ganhou uma adaptação cinematográfica este ano.

Felipe Saraiça na Bienal de 2017. Foto: Reprodução/ Facebook.

Confira a entrevista:

Provavelmente você já deve ter tido que responder a essa pergunta, mas de onde veio à ideia para escrever “Para Onde Vão Os Suicidas?”?

R: Eu conheci uma pessoa há alguns anos atrás que passou por momentos delicados que a levaram a tentar cometer suicídio. Essa pessoa era muito importante em minha vida, além de extremamente talentosa, mas sempre foi julgada por suas falhas. Em primeiro momento a ideia veio desse motivo, pois eu queria criar um livro que mostrasse uma visão diferente dos suicidas, mostrando sua visão sobre vida, morte e si mesmo sem julgamentos ou preconceitos. O livro é, inclusive, dedicado a essa pessoa, que é como um anjo em minha vida.

Ixtab, a deusa dos suicidas, é um personagem importantíssimo no livro. Você já a conhecia antes de escrever a história?

R: Não, quando decidi falar sobre suicídio, decidi também fazer algo diferente, juntando realidade e fantasia, então, após muita pesquisa, encontrei a Ixtab e decidi colocá-la em minha história.

O livro tem um tom bastante positivo, diria até colorido. Mesmo tendo seus momentos mais tristes e tensos. E eu achei que valoriza bastante as artes. Se eu estiver certo, tem um motivo especial para tudo isso?

R: Eu busco sempre trazer uma narrativa mais leve ao abordar esses assuntos, pois é necessário todo cuidado para não romantizar ou normalizar essas questões, descrevendo-as de maneiras pejorativas ou com tons mais graves apenas para trazer choque. Eu escrevo sobre a vida e busco mostrar que, mesmo em dias nublados, podemos encontrar novas cores para recomeçar.
Sobre as artes, muitos de meus personagens são artistas ou veem a arte como uma maneira de ajudá-los, pois a arte me salvou uma vez e acredito que ela tem esse poder de salvação e reconstrução.

Você fez muita pesquisa para escrever o livro? Não só na questão de mitologia, mas também questões psicológicas a respeito do suicídio, depressão? Se sim, como foi?

R: Todo o livro é baseado em muitas pesquisas, desde a carta de suicídio, a criação dos personagens, as doenças que passam e o que os leva a buscar o suicídio. Além disso, usei muito da minha visão sobre as pessoas, criando uma narrativa de aproximação, trazendo o lado mais humano de cada um e buscando transmitir isso ao leitor.

Muito se discute sobre que é importante falar sobre suicídio, depressão, tanto que temos até a campanha do setembro amarelo. Mas também se fala muito por aí, nas redes sociais, com maior ou menor embasamento, a forma como apresentar, falar sobre esses temas e abordá-los nas mídias e no entretenimento. Como você diria que deve ser feito algo desse tipo?

R: Falar sobre suicídio sempre foi um tabu, pois por um tempo acreditaram que falar sobre o tema pode trazer novas ondas de suicídio. Porém, é exatamente o contrário. O suicídio não pode ser tratado como um segredo, afinal, o ato já acontece no mundo inteiro. O que precisamos é ter cuidado e respeito com a maneira de falar e representar o assunto, buscando não levar gatilho ou tratar o assunto de maneira banal.

Como você acha que tratamos essas questões todas na sociedade atualmente? Não falo apenas sobre depressão, suicídio, mas também sobre empatia e amor ao próximo, que são temas presentes no enredo.

R: As redes sociais estão repletas de informações e pessoas diferentes e naturalmente isso gera conflitos. O que precisamos aprender é que temos que viralizar mais as noticias boas do que as ruins, pois perdemos um bom tempo repostando tragédias e assuntos polêmicos e acabamos não consumindo tanto aquilo que há de bom que as pessoas fazem.

Como que as pessoas reagem ao seu livro que trata de um tema tão delicado, mas ao mesmo tempo importante? Que feedbacks mais te marcaram por essa obra?

R: O livro tem sido bem aceito e a maioria dos comentários são positivos e isso me deixa extremamente feliz e com a sensação de dever cumprido. Sobre os feedbacks, existe um que me deixou bastante emocionado e foi feito por uma leitora chamada Ana Clara. Deixarei aqui um trecho:

“É raro eu ler quando estou deprimida, mas hoje confiei no Autor e amigo Felipe Saraiça pra me dar um motivo. Só um que fosse, pra não querer o suicídio.

Até hoje me questionava porque ainda não tinha lido esse livro e agora percebo que, ou guiada por intuição ou por uma mão invisível, guardei essas 188 paginas pra um momento de desespero. As guardei quase como se já soubesse que me salvariam um dia.

De olhos inchados e rosto vermelho, contemplo na capa um rosto feminino divino, que graças a muito, muito, só espero encontrar depois de idosa.

Deixo aqui meu agradecimento, nem tão discreto e nem tão adulto, por mais um livro que escolho dizer, não que marcou a minha vida, mas que a salvou.

Ainda é domingo, o dia em que mais suicídios são cometidos. Não o meu, eu prometo. Prometo também ser gentil e ter coragem, coisas que a Vida exige de nós.”

Colunista: Walter Niyama tem 22 anos, estuda Jornalismo pela ESPM-SP e é autor publicado de três livros: O Mistério dos Suicidas; Guardiões de Sonhos – As Portas dos Pesadelos; e Anos Atrás – Uma História de Santiago Valentim.

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